Não vaverá transição climática sem redução das desigualdades

A crise climática deixou de ser uma preocupação do futuro. Ela já altera a forma como produzimos alimentos, utilizamos os recursos naturais e organizamos nossas economias. Em resposta, governos, empresas e investidores anunciam compromissos para reduzir emissões, restaurar ecossistemas e acelerar a chamada transição climática.

Mas há uma pergunta que precisa ocupar o centro desse debate: quem será beneficiado por essa transição?

Se ela não for capaz de reduzir desigualdades, gerar oportunidades e melhorar a vida das populações mais vulneráveis, dificilmente poderá ser considerada uma transição verdadeiramente justa.

Joana Dark, agricultora do município de Sertânia-PE. Foto: IDH/Cláudio Gomes

Na Caatinga, essa realidade é evidente. Único bioma exclusivamente brasileiro, abriga cerca de 30 milhões de pessoas que convivem diariamente com a escassez hídrica, a variabilidade climática e os desafios históricos do desenvolvimento regional. As mudanças do clima não criaram essas desigualdades, mas certamente as intensificam.

Esse cenário, no entanto, contrasta com o enorme potencial do território. A Caatinga reúne atributos que poucos territórios no mundo conseguem combinar: é um bioma exclusivamente brasileiro, uma das regiões semiáridas mais populosas do planeta e um ativo estratégico para o enfrentamento das mudanças climáticas. Estudos recentes reforçam sua importância para o sequestro e armazenamento de carbono, ao mesmo tempo em que destacam seu enorme potencial para conciliar conservação ambiental, produção de alimentos e desenvolvimento econômico. O desafio não está na falta de potencial, mas na insuficiente atenção que o território ainda recebe das políticas públicas e dos investimentos voltados à transição climática.

São justamente os agricultores e agricultoras familiares — responsáveis por grande parte da produção de alimentos consumidos no país — que enfrentam os maiores riscos. Secas mais frequentes, temperaturas elevadas e chuvas irregulares comprometem a produção, reduzem a renda e ampliam a vulnerabilidade econômica das famílias rurais.

Ao mesmo tempo, esses produtores carregam um patrimônio muitas vezes invisível nas discussões globais sobre clima: o conhecimento acumulado sobre convivência com o semiárido. Durante gerações, aprenderam a produzir em condições adversas, diversificar sistemas produtivos, manejar recursos naturais de forma adaptada e construir estratégias de resiliência muito antes de esse conceito ganhar destaque nas conferências internacionais.

O desafio, portanto, não é apenas adaptar essas famílias às mudanças climáticas. É garantir que elas tenham condições de prosperar nesse novo contexto.

Um estudo conduzido pelo Anker Research Institute, em parceria com o Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (CEBRAP) e a Fundação IDH, revelou uma realidade preocupante: a renda de grande parte das famílias rurais do semiárido permanece distante do necessário para assegurar um padrão de vida digno, de 30–50% menor. Essa constatação reforça que a pobreza continua sendo uma das maiores barreiras à adaptação climática.

Famílias com renda insuficiente têm menos capacidade de investir em tecnologias, acessar crédito, diversificar sua produção ou enfrentar eventos climáticos extremos. Em outras palavras, a renda também é uma estratégia de adaptação climática.

Por isso, limitar a agenda climática às emissões de carbono significa enxergar apenas parte da solução.

Fortalecer a agricultura familiar, ampliar o acesso à assistência técnica, facilitar o crédito rural, apoiar cooperativas, desenvolver mercados inclusivos e expandir políticas públicas como as compras institucionais de alimentos não são apenas medidas de desenvolvimento rural. São investimentos em resiliência climática.

Cada produtor que amplia sua renda aumenta sua capacidade de permanecer no campo, investir em práticas mais sustentáveis, reduzir riscos produtivos e contribuir para a segurança alimentar do país. Cada cooperativa fortalecida gera empregos, agrega valor à produção e dinamiza economias locais. Cada município que fortalece seus sistemas alimentares torna-se mais preparado para enfrentar as incertezas climáticas.

É justamente por isso que desenvolvimento econômico, inclusão social e sustentabilidade ambiental não podem mais ser tratados como agendas separadas.

A Caatinga oferece uma demonstração concreta dessa integração. Ao longo dos últimos anos, diferentes iniciativas têm mostrado que é possível combinar adaptação climática, restauração ambiental, fortalecimento da agricultura familiar e geração de renda em uma mesma estratégia de desenvolvimento territorial. Quando o agricultor encontra assistência técnica, acesso ao crédito, mercados estruturados e políticas públicas eficientes, toda a economia local se fortalece.

A verdadeira transição climática não será construída apenas com novas tecnologias ou grandes investimentos em infraestrutura verde. Ela dependerá, sobretudo, da capacidade de gerar prosperidade para quem vive nos territórios mais vulneráveis às mudanças do clima.

Esse talvez seja o principal aprendizado que a Caatinga pode oferecer ao Brasil e ao mundo.

Durante muito tempo, o semiárido foi retratado apenas como um espaço de escassez. Hoje, ele pode ser reconhecido como um laboratório de soluções para uma economia mais resiliente, inclusiva e sustentável. A experiência das comunidades locais demonstra que adaptação não significa apenas resistir aos impactos climáticos, mas criar oportunidades de desenvolvimento a partir deles.

Na Caatinga Climate Week, quando diferentes setores se reúnem para discutir o futuro da agenda climática, vale lembrar que hectares restaurados, emissões evitadas e investimentos verdes são indicadores importantes, mas insuficientes.

O verdadeiro sucesso da transição climática será medido também pela capacidade de reduzir desigualdades, gerar renda e garantir que milhões de famílias possam permanecer em seus territórios com dignidade, produzindo alimentos, conservando a biodiversidade e construindo um futuro mais próspero.

Reduzir as desigualdades sociais dever ser mais do que apenas um resultado desejável da agenda climática. É a condição indispensável para que ela seja, de fato, uma transição justa.

Grazielle Cardoso é economista, doutora em Desenvolvimento Econômico pela Unicamp, com foco em economia agrícola e meio ambiente. Atua há mais de uma década na interface entre desenvolvimento rural, agricultura familiar e sustentabilidade, com experiência em projetos na América Latina que conectam produtores, setor público, iniciativa privada e comunidades científicas em torno de objetivos comuns.
Desde 2022, lidera o Programa Raízes da Caatinga, da Fundação IDH, com foco no aumento de renda da agricultura familiar, adaptação climática e fortalecimento de mercados inclusivos no semiárido brasileiro, uma das regiões mais vulneráveis às mudanças climáticas no país.

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Desenvolvimento da agricultura familiar na região de Balsas-MA

O projeto tem como objetivo melhorar a produção de culturas da agricultura familiar nas comunidades que fazem parte do Pacto PCI na região de Balsas, no sul do Maranhão, promovendo a diversificação de culturas por meio da transferência de conhecimento.

Transformando pequenos agricultores em empreendedores rurais

O projeto tem como objetivo implementar um modelo de assistência técnica e assessoria para melhorar a produtividade e a qualidade dos produtos oferecidos pela agricultura familiar, proporcionando-lhes acesso ao mercado e fortalecendo as cadeias alimentares tradicionais locais como forma de evitar a conversão de suas terras e vegetação nativa em monocultura.

Pacto Sertão do Apodi

O Pacto Sertão do Apodi foi formalizado em dezembro de 2023 com a assinatura representantes dos setores público, privado e sociedade civil. O pacto visa promover o desenvolvimento econômico sustentável na região do Sertão do Apodi, no Rio Grande do Norte.

Pacto Cariri Sustentável

O Pacto Cariri Sustentável foi formalizado em dezembro de 2023, com a participação de representantes dos setores público, privado e sociedade civil. O pacto visa promover o desenvolvimento econômico sustentável na região região do Cariri, no estado da Paraíba.

Pacto Pajeú Sustentável

O Pacto Pajeú Sustentável foi formalizado em dezembro de 2023, com a participação de representantes dos setores público, privado e sociedade civil. O pacto visa promover o desenvolvimento econômico sustentável na região do Sertão do Pajeú, em Pernambuco.

Pacto PCI da Região de Balsas

O Pacto PCI da Região de Balsas foi formalizado em novembro de 2020, inclui 12 municípios e possui, atualmente, 39 signatários representantes dos setores público e privado, além de organizações da sociedade civil.

Pacto PCI de Barra do Garças

O Pacto PCI de Barra do Garças foi formalizado em junho de 2019 e possui, atualmente, 43 signatários. Em dezembro de 2019 foi constituído como Programa Municipal.

Pacto PCI de Sorriso

O Pacto PCI de Sorriso foi formalizado em abril de 2019 e possui, atualmente, 18 signatários dos setores público, privado e sociedade civil. Através do Pacto, em 2021 foi criado o Programa de Microcrédito Rural Familiar – Fundo de Aval – que destina recursos para agricultores familiares

Pacto PCI Vale do Juruena

O Pacto PCI do Vale do Juruena foi formalizado em maio de 2018 e possui, atualmente, 22 signatários representantes de produtores rurais, empresas, governos municipais e organizações da sociedade civil. O Pacto é um compromisso territorial envolvendo os municípios de Cortiguaçu e Juruena. O município de Juína, na mesma região, deve ser incluído da iniciativa em 2024

CAP Pajeú

Em maio de 2024, a IDH e parceiros locais instalaram o Centro de Atendimento ao Produtor (CAP), cuja missão é facilitar a vida de quem trabalha no campo. Localizado no município de Afogados da Ingazeira-PE, o escritório oferece, em um único lugar e de forma gratuita, orientações sobre regularização ambiental, fundiária, oportunidades de desenvolvimento e acesso a crédito.

Endereço: Rua Senador Paulo Guerra, 170, Centro – Afogados da Ingazeira-Pernambuco.
Atendimento: das 8h às 12h.

CAP Cariri

Em maio de 2024, a IDH e parceiros locais instalaram o Centro de Atendimento ao Produtor (CAP), cuja missão é facilitar a vida de quem trabalha no campo. Localizado no município de Monteiro-PB, o escritório oferece, em um único lugar e de forma gratuita, orientações sobre regularização ambiental, fundiária, oportunidades de desenvolvimento e acesso a crédito.

Endereço: Travessa Querubina Teixeira de Oliveira, n°55, Térreo, Centro – sede do
Sindicato dos trabalhadores na agricultura familiar – Monteiro-Paraíba.
Atendimento: 8h às 13h

CAP Apodi

Em maio de 2024, a IDH e parceiros locais instalaram o Centro de Atendimento ao Produtor (CAP), cuja missão é facilitar a vida de quem trabalha no campo. Localizado no município de Apodi-RN, o escritório oferece, em um único lugar e de forma gratuita, orientações sobre regularização ambiental, fundiária, oportunidades de desenvolvimento e acesso a crédito.

Endereço: Rua Nonato Mota, nº 106 – Apodi-Rio Grande do Norte.
Atendimento: 8h às 12h

CAP Região de Balsas

Em maio de 2023, a IDH e parceiros locais instalaram o Centro de Atendimento ao Produtor (CAP), cuja missão é facilitar a vida de quem trabalha no campo. Localizado no município de Balsas-MA, o escritório oferece, em um único lugar e de forma gratuita, orientações sobre regularização ambiental, fundiária, oportunidades de desenvolvimento e acesso a crédito.

Endereço: Avenida Governador Luiz Rocha, s/nº Escritório da Agerp – Balsas-Maranhão.
Atendimento: 7h às 13h

CAP Barra do Garças

Em outubro de 2021, a IDH e parceiros locais instalaram o Centro de Atendimento ao Produtor (CAP), cuja missão é facilitar a vida de quem trabalha no campo. Localizado no município de Barra do garças-MT, o escritório oferece, em um único lugar e de forma gratuita, orientações sobre regularização ambiental, fundiária, oportunidades de desenvolvimento e acesso a crédito.

Endereço: Tv. Voluntários da Pátria, nº 2-144, Centro – Sec. de Desenvolvimento Rural.
Atendimento: 8h às 12h

CAP Sorriso

Em outubro de 2021, a IDH e parceiros locais instalaram o Centro de Atendimento ao Produtor (CAP), cuja missão é facilitar a vida de quem trabalha no campo. Localizado no município de Sorriso-MT, o escritório oferece, em um único lugar e de forma gratuita, orientações sobre regularização ambiental, fundiária, oportunidades de desenvolvimento e acesso a crédito.

Endereço: Rua Cândido Rondon, 2311, Bela Vista – SEMASA – Sorriso-Mato Grosso.
Atendimento: 7h às 13h

CAP Cotriguaçu

Em outubro de 2021, a IDH e parceiros locais instalaram o Centro de Atendimento ao Produtor (CAP), cuja missão é facilitar a vida de quem trabalha no campo. Localizado no município de Cotriguaçu-MT, o escritório oferece, em um único lugar e de forma gratuita, orientações sobre regularização ambiental, fundiária, oportunidades de desenvolvimento e acesso a crédito.

Endereço: Av. Henrique Xavier Rodovalho, Centro – Anexo a EMPAER – Cotriguaçu-Mato Grosso.
Atendimento: 7h30 às 13h

Cultivando Vida Sustentável

O programa Cultivando Vida Sustentável é cofinanciado e implementado em parceria com o CAT – Clube Amigos da Terra de Sorriso – desde 2019, no município de Sorriso, Mato Grosso. As atividades visam fortalecer a produção de soja certificada, a restauração de áreas de floresta e o desenvolvimento da agricultura familiar

Programa Nosso Leite

O Programa teve início em 2021 e é desenvolvido pelo SEBRAE-MT contando com cofinanciamento e a parceria do laticínio Casterleite e do Sicredi na região do Vale do Juruena, Amazônia mato-grossense. O objetivo é promover a melhoria da pecuária leiteira.

Raízes da Caatinga

O Programa Raízes da Caatinga foi criado em 2021 pela IDH em parceria com a Fundação Laudes. É uma iniciativa que reúne entidades e pessoas dos setores público, privado e da sociedade civil, estruturada em compromissos territoriais para promover o desenvolvimento sustentável, a restauração e conservação do bioma. O Programa está presente no Sertão do Pajeú, em Pernambuco, no Sertão do Cariri, na Paraíba, e no Sertão do Apodi, no Rio Grande do Norte.

 

CAP Juruena

Em outubro de 2021, a IDH e parceiros locais instalaram o Centro de Atendimento ao Produtor (CAP), cuja missão é facilitar a vida de quem trabalha no campo. Localizado no município de Juruena-MT, o escritório oferece, em um único lugar e de forma gratuita, orientações sobre regularização ambiental, fundiária, oportunidades de desenvolvimento e acesso a crédito.

Endereço: Av. 04 de julho, Vila Nova – Anexo à Sec. De Agricultura – Juruena-Mato Grosso.
Atendimento: 7h às 11h e das 13h às 17h

Produção Sustentável de Bezerros

O Programa teve início em 2019 e tem como visão mudar a dinâmica de produção e comercialização da cadeia pecuária, melhorando os resultados do segmento de cria nos aspectos econômicos, ambientais e sociais. Está presente no Mato Grosso e no Pará, contando com parceiros estratégicos, como Carrefour, Mars, Marfrig, Faepa  e Acrimat.

Em Mato Grosso, os parceiros implementadores são a Natcap e o Instituto BioSistêmico (IBS). No Pará, contamos com a Natcap e o Senar.