A crise climática deixou de ser uma preocupação do futuro. Ela já altera a forma como produzimos alimentos, utilizamos os recursos naturais e organizamos nossas economias. Em resposta, governos, empresas e investidores anunciam compromissos para reduzir emissões, restaurar ecossistemas e acelerar a chamada transição climática.
Mas há uma pergunta que precisa ocupar o centro desse debate: quem será beneficiado por essa transição?
Se ela não for capaz de reduzir desigualdades, gerar oportunidades e melhorar a vida das populações mais vulneráveis, dificilmente poderá ser considerada uma transição verdadeiramente justa.

Na Caatinga, essa realidade é evidente. Único bioma exclusivamente brasileiro, abriga cerca de 30 milhões de pessoas que convivem diariamente com a escassez hídrica, a variabilidade climática e os desafios históricos do desenvolvimento regional. As mudanças do clima não criaram essas desigualdades, mas certamente as intensificam.
Esse cenário, no entanto, contrasta com o enorme potencial do território. A Caatinga reúne atributos que poucos territórios no mundo conseguem combinar: é um bioma exclusivamente brasileiro, uma das regiões semiáridas mais populosas do planeta e um ativo estratégico para o enfrentamento das mudanças climáticas. Estudos recentes reforçam sua importância para o sequestro e armazenamento de carbono, ao mesmo tempo em que destacam seu enorme potencial para conciliar conservação ambiental, produção de alimentos e desenvolvimento econômico. O desafio não está na falta de potencial, mas na insuficiente atenção que o território ainda recebe das políticas públicas e dos investimentos voltados à transição climática.
São justamente os agricultores e agricultoras familiares — responsáveis por grande parte da produção de alimentos consumidos no país — que enfrentam os maiores riscos. Secas mais frequentes, temperaturas elevadas e chuvas irregulares comprometem a produção, reduzem a renda e ampliam a vulnerabilidade econômica das famílias rurais.
Ao mesmo tempo, esses produtores carregam um patrimônio muitas vezes invisível nas discussões globais sobre clima: o conhecimento acumulado sobre convivência com o semiárido. Durante gerações, aprenderam a produzir em condições adversas, diversificar sistemas produtivos, manejar recursos naturais de forma adaptada e construir estratégias de resiliência muito antes de esse conceito ganhar destaque nas conferências internacionais.
O desafio, portanto, não é apenas adaptar essas famílias às mudanças climáticas. É garantir que elas tenham condições de prosperar nesse novo contexto.
Um estudo conduzido pelo Anker Research Institute, em parceria com o Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (CEBRAP) e a Fundação IDH, revelou uma realidade preocupante: a renda de grande parte das famílias rurais do semiárido permanece distante do necessário para assegurar um padrão de vida digno, de 30–50% menor. Essa constatação reforça que a pobreza continua sendo uma das maiores barreiras à adaptação climática.
Famílias com renda insuficiente têm menos capacidade de investir em tecnologias, acessar crédito, diversificar sua produção ou enfrentar eventos climáticos extremos. Em outras palavras, a renda também é uma estratégia de adaptação climática.
Por isso, limitar a agenda climática às emissões de carbono significa enxergar apenas parte da solução.
Fortalecer a agricultura familiar, ampliar o acesso à assistência técnica, facilitar o crédito rural, apoiar cooperativas, desenvolver mercados inclusivos e expandir políticas públicas como as compras institucionais de alimentos não são apenas medidas de desenvolvimento rural. São investimentos em resiliência climática.
Cada produtor que amplia sua renda aumenta sua capacidade de permanecer no campo, investir em práticas mais sustentáveis, reduzir riscos produtivos e contribuir para a segurança alimentar do país. Cada cooperativa fortalecida gera empregos, agrega valor à produção e dinamiza economias locais. Cada município que fortalece seus sistemas alimentares torna-se mais preparado para enfrentar as incertezas climáticas.
É justamente por isso que desenvolvimento econômico, inclusão social e sustentabilidade ambiental não podem mais ser tratados como agendas separadas.
A Caatinga oferece uma demonstração concreta dessa integração. Ao longo dos últimos anos, diferentes iniciativas têm mostrado que é possível combinar adaptação climática, restauração ambiental, fortalecimento da agricultura familiar e geração de renda em uma mesma estratégia de desenvolvimento territorial. Quando o agricultor encontra assistência técnica, acesso ao crédito, mercados estruturados e políticas públicas eficientes, toda a economia local se fortalece.
A verdadeira transição climática não será construída apenas com novas tecnologias ou grandes investimentos em infraestrutura verde. Ela dependerá, sobretudo, da capacidade de gerar prosperidade para quem vive nos territórios mais vulneráveis às mudanças do clima.
Esse talvez seja o principal aprendizado que a Caatinga pode oferecer ao Brasil e ao mundo.
Durante muito tempo, o semiárido foi retratado apenas como um espaço de escassez. Hoje, ele pode ser reconhecido como um laboratório de soluções para uma economia mais resiliente, inclusiva e sustentável. A experiência das comunidades locais demonstra que adaptação não significa apenas resistir aos impactos climáticos, mas criar oportunidades de desenvolvimento a partir deles.
Na Caatinga Climate Week, quando diferentes setores se reúnem para discutir o futuro da agenda climática, vale lembrar que hectares restaurados, emissões evitadas e investimentos verdes são indicadores importantes, mas insuficientes.
O verdadeiro sucesso da transição climática será medido também pela capacidade de reduzir desigualdades, gerar renda e garantir que milhões de famílias possam permanecer em seus territórios com dignidade, produzindo alimentos, conservando a biodiversidade e construindo um futuro mais próspero.
Reduzir as desigualdades sociais dever ser mais do que apenas um resultado desejável da agenda climática. É a condição indispensável para que ela seja, de fato, uma transição justa.
Grazielle Cardoso é economista, doutora em Desenvolvimento Econômico pela Unicamp, com foco em economia agrícola e meio ambiente. Atua há mais de uma década na interface entre desenvolvimento rural, agricultura familiar e sustentabilidade, com experiência em projetos na América Latina que conectam produtores, setor público, iniciativa privada e comunidades científicas em torno de objetivos comuns.
Desde 2022, lidera o Programa Raízes da Caatinga, da Fundação IDH, com foco no aumento de renda da agricultura familiar, adaptação climática e fortalecimento de mercados inclusivos no semiárido brasileiro, uma das regiões mais vulneráveis às mudanças climáticas no país.